NECESSÁRIO EQUILÍBRIO ENTRE O SÓLIDO E O LÍQUIDO NA (S) SOCIEDADE (S)

NECESSÁRIO EQUILÍBRIO ENTRE O SÓLIDO E O LÍQUIDO NA (S) SOCIEDADE (S)

NECESSÁRIO EQUILÍBRIO ENTRE O SÓLIDO E O LÍQUIDO NA (S) SOCIEDADE (S)

Sobre as graves consequências sociais pela falta de parâmetros sólidos, responsáveis pela guia de condutas e relativa harmonização das pessoas em contexto social, quando depois da Segunda Guerra, a sociedade/modernidade sólida se desfaz, dando espaço à sociedade/modernidade líquida. Instalam-se conflitos sobre parâmetros de conduta nunca antes vistos, principalmente pelo grande contato entre povos e culturas nunca antes tão próximos, dentro de um contexto global.




Não temos, neste sentido, uma crítica sobre potência de bem e mal, mas um alerta sobre o que hodiernamente acontece, quando os parâmetros são deixados de lado e cada um, seja pessoa ou grupo, cria o que pensa ser melhor para si, obrigando a todos consentirem, afirmando que a própria individualidade é liberdade.

A liberdade necessita ser social, pois se assim não for, passa a ser arbitrária, pois impõe o que reside na subjetividade mental de uma pessoa, às condutas de outras, mesmo que estas não concordem. É o ponto em que a força prevalece e as convenções sociais regridem. Ao invés de convenções, passa a existir controle de ações. Este controle pode partir da dominação ideológica ou pela violência, contra aquelas pessoas que não cedem às ideologias.

Sociedades sólidas e líquidas fazem parte do contexto histórico humano. Sempre que um conjunto de parâmetros era destruído, outro era criado. O que devemos perceber historicamente é que as sociedades que não tiveram a permissividade para manterem os seus padrões de formação social, deixaram de existir como antes e passaram a existir de acordo com o que os grupos dominadores exigiram. Em alguns casos, as civilizações se desfizeram, sem deixarem, sequer, vestígios arqueológicos que evidenciem como aquela cultura, representada em meras ruínas, existiu.

Afirma Bauman:

“São esses padrões, códigos e regras a que podíamos nos conformar, que podíamos selecionar como pontos estáveis de orientação e pelos quais podíamos nos deixar depois guiar, que estão cada vez mais em falta. Isso não quer dizer que nossos contemporâneos sejam livres para construir seu modo de vida a partir do zero e segundo sua vontade, ou que não sejam mais dependentes da sociedade para obter as plantas e os materiais de construção. Mas quer dizer que estamos passando de uma era de ‘grupos de referência’ predeterminados a uma outra de ‘comparação universal’, em que o destino dos trabalhos de autoconstrução individual (…) não está dado de antemão, e tende a sofrer numerosa e profundas mudanças antes que esses trabalhos alcancem seu único fim genuíno: o fim da vida do indivíduo”. (BAUMAN, 2001)

A sociedade moderna se tornou extremamente líquida. Uma sociedade líquida é aquela que flui livremente, sem parâmetros sólidos para movê-la. Não é como um rio em seu curso natural, mas como um tsunami, provocado pelos diversos conflitos sobre quais parâmetros devem ser mantidos para que se solidifiquem os grupos e a humanidade, dentro das suas diferenças não necessariamente divergentes. É ampla a vantagem à força, pois sem parâmetros limitadores, os que se impõem, comumente, prevalecem.

O dinamismo social é fundamental ao desenvolvimento da humanidade. Dinamismo implica em fluidez sem rompimento de barreiras que limitam o curso social, para que não ocorra de maneira descontrolada. O desenvolvimento implica em criar nossos cursos, sem que a nascente e o rio sejam destruídos. Mesmo que este rio seja desviado para outro curso, há ainda potencial equilíbrio, pois sai de um curso definido para outro.

O atual momento da humanidade é complexo pela quantidade de parâmetros distintos que as sociedades humanas desenvolveram, isoladas umas das outras. Nada incomum, pequenas sociedades ao longo da história humana se digladiarem, por divergências que se apoiavam não só na necessidade de sobrevivência, mas na ganância. Muitos instrumentos foram utilizados para o domínio das massas que seriam colocadas em campos de batalhas.

Os campos de batalhas da atualidade são mais ideológicos que diretamente físicos. No entanto, a ideologia é apenas o primeiro passo para os conflitos físicos. Há aplicações ideológicas que se pautam em uma pseudo harmonia, e que levam a violentos conflitos contra os opositores, vislumbrando esta falsa harmonia não pela tolerância, mas pela destruição das oposições. A harmonia, de fato, não existe. O que há é uma concatenação de ações dominadas por parâmetros ideológicos. Passa a existir um rebanho que muge enquanto é engordado para o abate, de acordo com os ideais pessoais dos pequenos grupos dominantes que, normalmente, conseguem atenção por diversas vias de vitimismo e incentivo a reações em prol de falsos ideais humanistas. É a torpe estratégia de buscar o que há de melhor no atávico humano, para fazer com que essas emoções se exteriorizem pela violência, enquanto os agressores pensam estar agindo, de fato, em prol da humanidade. Os lados se digladiam pelos mesmos ideais humanistas, sem perceberem que, pelo menos um, é guiado em um estreito corredor para um matadouro, apenas para que os donos do rebanho se banqueteiem.

A fluidez da atual sociedade perdeu, quase que em absoluto, os parâmetros de conduta, com falácias de ações livres de parâmetros, serem o que leva à ausência de conflitos.

Toda pessoa é única e, alegoricamente, tem em si um sujeito e um indivíduo. O sujeito é o conjunto de parâmetros sociais que define as ações das pessoas e, o indivíduo, é o que a pessoa é em essência, com os seus entendimentos absolutamente pessoas sobre o mundo, construídos pelas suas experiências e informações adquiridas.

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Quando o indivíduo interno é dominado por uma ideologia, o sujeito interno se torna senhor do indivíduo interno e transforma a pessoa em mera massa de manobra. No entanto, não destrói os desejos pessoais e as potências atávicas, que podem não se manifestarem de maneira significativa até que sejam provocadas de alguma maneira. Quando a pessoa não concorda com as ideologias impostas, mas mesmo assim age de maneira a se preservar, ela tem total controle sobre si, mesmo que agindo de forma que não concorda. Este tipo de pessoa é que vai ter grande potência de reação em si, criando ou aguardando oportunidades para se impor, na tentativa de destruir as dominações ou de criar novas, pensando ser coisa adequada e até mesmo dotada de bondade.

O que impede esta presente potência destrutiva são regras; parâmetros de conduta que limitam as ações baseadas no próprio indivíduo interno, que simplesmente poderíamos chamar de alvedrio. Mesmo que a pessoa não concorde completamente com a regra, ela entende que é necessária e que não é tão perigosa a ela, sendo que em contrapartida, também existem regras que a beneficiam bastante, mesmo que, relativamente, não sejam tão bem aceitas por outras pessoas. O ponto é que há benefícios e malefícios que não superam os considerados benefícios. Temos uma liberdade construída. Parâmetros a serem seguidos.

Quando a sociedade é extremamente fluida, não como um rio, mas como um tsunami, os mais fortes tendem a subjugar os mais fracos, criando dominação ideológica, ao invés de parâmetros culturais. Entendamos força aqui como capacidade de controlar e direcionar, de acordo com os propósitos pessoais, as forças opositoras.

A globalização deu ao Ser humano a possibilidade de se harmonizar com as suas tantas diferentes sociedades, de maneira a não serem divergentes em demasia.

A sociedade líquida não é um problema e tampouco um benefício. É a maneira natural de realocação social. O ponto que não é tratado na atualidade com a devida atenção, são os parâmetros. A ausência de parâmetros impede que sejam construídas normas de conduta e uma real liberdade, dando a cada pessoa e pequenos grupos, a possibilidade de subjugarem uns aos outros. Quando dois grupos se encontram e tentam se subjugarem, há conflitos certos, com proporções que podem variar em grandes extremos.

A recuperação dos parâmetros sólidos é o que dá base comparativa para a sociedade excessivamente fluida se reconstruir e se solidificar. Não em uma solidificação estática, mas dinâmica, permitindo a fluidez das relações, limitadas pelos parâmetros.

A negação dos parâmetros é a necessária aceitação de que a humanidade se reduz aos primórdios das sociedades humanas, se construindo do nada, pela imposição da força, apenas usando critérios de preservação pessoal e da prole, passando a perceber o grupo como essencial a si e a prole e, posteriormente, refinando as relações para amplitude de recursos, fazendo surgir a ganância, que é fruto da necessidade de preservação baseada nos excessos conquistados, tidos como reserva essencial, dentro de aspectos subjetivos. Construir seria como não ter parâmetros e, reconstruir, seria transformar um algo já existente em outro. A sociedade deve ser fluida para se reconstruir constantemente e, sólida, para que a liberdade se faça presente pelos parâmetros impostos sob o julgo de tolerância e intolerância aceitáveis pelos receptores das regras e usuários da liberdade: as pessoas, em um contexto geral.

Para uma melhor alegoria, devemos perceber a sociedade como um rio. O rio em si é a sociedade que corre com base em sua margem. A margem em si são os parâmetros, tal como pode ser as pessoas marginais. Pessoas marginais são aquelas que não seguem a dinâmica do rio, mas que não o afetam; não impedem o seu curso. Os delinquentes seriam os impedimentos da fluidez do rio, como margens destruídas, obstáculos, bancos de areias… se o rio não usar de relativa força para manter o seu curo e as suas margens, os obstáculos irão decidir os rumos do rio.

O que seria, em suma, ser margem, marginal, rio e obstáculo? As margens são os parâmetros definidores do curso do rio. É o que solidifica a fluidez ou, melhor explicando, são os parâmetros que permitem à dinâmica reconstrutiva da (s) sociedade (s). Ser marginal é não estar inserido nos parâmetros comuns (rio), mas não implicando em ser conflitante com eles. É estar na margem sem afetá-la, pois a margem é o parâmetro do rio e as pessoas marginais residem nela. É como alguém que não quer se molhar por completo, mas que inevitavelmente molha os pés e se contenta com isso, por estar à margem do rio. Como a margem é seu lugar de estabilidade, não a destrói. O rio segue normalmente. Ser delinquente é necessariamente ser conflitante em relação às margens e ao rio, pois as ações delinquentes afetam estas diretamente. Ser o rio é seguir os parâmetros de maneira relativamente harmoniosa.

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Um marginal não é o que comumente afirmam: um delinquente. Um marginal não impede a dinâmica social. Ele apenas não quer estar absolutamente imerso nela, mas não a vê como uma ameaça tão grande a ponto de ser combatida. O combate se dá pelo relativo afastamento e resistência a determinados parâmetros, tal como a margem de um rio faz. O marginal cria os seus parâmetros de afastamento, sem digladiar com o rio. Apenas impede o rio de imergi-lo nele. Um marginal se torna delinquente quando interfere no rio. Se a margem cai, criando obstáculos, desvia o curso do rio, em potências que variam muito. A delinquência é a ação que modifica o curso do rio, afetando as margens, inclusive.

É aqui que podemos perceber as motivações pessoais e a aferição de danos após os fatos, quando o mundo sensível já experimentou as modificações. As motivações são potências para o agir; justificativas e, como cada Ser humano é único, as motivações pessoais podem ser definidas como boas ou más; corretas ou incorretas; essenciais ou não… de acordo com os critérios pessoais de cada pessoa. É por isso que os parâmetros são essenciais. A sociedade sólida deve existir para que regras de conduta sejam postas, mesmo que as convicções, que são entendimentos subjetivos sobre as coisas e fatos, mesmo existindo, não sejam a única motivação no agir. Em suma, as motivações não devem ser meramente pessoais, mas pessoais baseadas em regras objetivas, para que o sujeito interno e o indivíduo interno negociem a sensação de liberdade ou não, dando parâmetros pessoais, baseados em parâmetros sociais, para fazer a pessoa decidir como agir, tendo total consciência de causas e efeitos.

É essencial que se perceba que sempre houve e haverá conflitos e que sempre prevalecerá algo, fazendo haver mais fortes. O que nos resta, então? A criação de parâmetros que sejam aceitáveis aos sujeitos e indivíduos internos. Por isso, devem existir parâmetros para que sejam as armas destes conflitos. Os parâmetros existentes criam argumentos que podem ser equilibrados, mesmo que relativamente. A comunicação é o que equilibra as relações e, a comunicação se baseia em parâmetros. Parâmetros que levam um objeto em debate a ser compreendido de maneira singular, mesmo que dentro de uma inevitável pluralidade de compreensões sobre o mesmo objeto, que vão se diluindo até que haja um conjunto de regras com perdas e ganhos aceitáveis, permitindo alterações de acordo com o dinamismo social.

Uma sociedade, para melhor compreensão, deve ser como água, para ter a capacidade de mudar de estados físicos. No entanto, deve ser sólida e fluida. Se aquecer em demasia (conflitos de grandes potências pela ausência de parâmetros mais incisivos), se dissolve e jamais será refeita com os parâmetros que existiram. Torna-se muito mais difícil percebermos a existência da água quando em estado gasoso. Tende a se condensar em gotas extremamente distantes, fazendo a quantidade de água que existia (parâmetros) jamais se unir novamente de maneira pura, até mesmo pelas contaminações sofridas pelo meio. Estamos em um estado quase gasoso e, este é o ponto de alerta. Estamos fervendo e nos dissipando de maneira desordenada, em pequenas gotas que jamais saciaram a sede de todas as pessoas em se solidificarem em uma condição social relativamente harmoniosa.

Por fim, nos é fundamental percebermos em que ponto estamos: margem, rio ou barreiras; se estamos em uma sociedade sólida ou líquida e, como equilibrar a solidez com a fluidez, para que a humanidade continue a se desenvolver de maneira positiva. Mais ainda, o que podemos fazer para melhorarmos o mundo para as próximas gerações? Pois a nossa, ao que parece, se torna a cada momento mais difícil de ser rapidamente equilibrada para o nosso aproveitamento. Possivelmente por este último motivo, as pessoas estejam se importando pouco com o mundo, pois já o aceitaram como está. Nos falta, então, empatia, pois somente com ela mudaremos a nós e ao mundo para os outros e, quem sabe, ainda possamos desfrutar tais mudanças. Somente agindo para sabermos…

Autor: Carlos Alexandre Costa Leite

 

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