DIA NACIONAL DA SAÚDE DO HOMEM: UMA DATA PARA INGLÊS VER

DIA NACIONAL DA SAÚDE DO HOMEM: UMA DATA PARA INGLÊS VER

15 De julho, comemora-se o dia do homem, mas na verdade é o dia da saúde do homem cujo objetivo é “lembra-los” de cuidar da própria saúde. Data comemorada desde 1992, por iniciativa da Ordem Nacional dos Escritores Brasileiros para reduzir os índices de morbimortalidade por causas preveníveis e evitáveis, bem como acolher e integrar os homens.




  1. POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO INTEGRAL DA SAÚDE DO HOMEM

A Política Nacional de Atenção Integral da Saúde do Homem (PNAISH) tem a diretriz de promover ações de saúde no que tange as singularidades masculinas e conta com cinco eixos temáticos, entre eles: “acesso e acolhimento” e “doenças prevalentes na população masculina”. O primeiro diz respeito a proposta inclusiva, mas infelizmente tem um mero caráter pedagógico, bem como o segundo, que objetiva “facilitar e garantir o acesso necessário a assistência básica no cuidado a saúde e enfrentamento de fatores de risco”.

A Política busca “integralidade e equidade, primando pela humanização da atenção”. Tem como princípios a humanização e a qualidade, que implicam na promoção, reconhecimento e respeito a ética e aos direitos dos homens, obedecendo ás suas peculiaridades sócio-culturais”. Belas palavras, entretanto, longe da prática, até porque o que são os ditos direitos dos homens, que ninguém vê em lugar algum no país? Alguns dos elementos dessa Política são:

  1. Universalidade e equidade nas ações e serviços de saúde voltados para a população masculina, abrangendo a disponibilidade de insumos, equipamentos e materiais educativos;

  2. Articulação com as diversas áreas do governo, com o setor privado e a sociedade, compondo redes de compromisso e co-responsabilidade quanto à saúde e a qualidade de vida da população masculina;

  3. Informações e orientação à população masculina, aos familiares e a comunidade sobre a promoção, prevenção, proteção, tratamento e recuperação dos agravos e das enfermidades do homem;

  4. Captação precoce da população masculina nas atividades de prevenção primária relativa às doenças cardiovasculares e cânceres, entre outros agravos recorrentes

  1. MÉDICO É TABU OU AS CONSULTAS SÃO IMPRATICÁVEIS?

Dizem que homem foge de médico, e não fazem exames e consultas de rotina, mas será mesmo que isso é verdade? Ou será que eles não conseguem ser atendidos? Menos de 30% da população brasileira têm convênio médico, conforme pesquisa do IBGE logo todo o restante depende do sistema único de Saúde (SUS), inclusive os homens.

“Os desafios a superar são imensos, a começar pelas causas externas de mortalidade, onde o predomínio dos óbitos do sexo masculino é devastador. A violência, por exemplo, vítima no geral o dobro de homens em relação às mulheres, e ao triplo, se considerarmos a faixa de 20 a 39 anos. Enquanto isso, de cada cem óbitos em acidentes de transporte terrestre, oitenta e dois são de homens, em geral jovens. Os homens são responsáveis por pelo menos seis de cada dez óbitos por doenças do aparelho circulatório e, no conjunto, esta é uma faixa etária em que a mortalidade masculina é pelo menos o dobro da feminina”.

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) realizou um estudo com dados alarmantes, em que aponta que 51% dos homens nunca foi a um urologista.

“Os homens brasileiros vão menos ao médico do que as mulheres. Segundo a última Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada pelo IBGE em 2015, apenas 63,9% dos homens procuraram um profissional médico nos 12 meses anteriores à entrevista, contra 78% das mulheres. Para o urologista do Hospital Santa Lúcia, Rafael Rocha Vidal, membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia, membro internacional da Sociedade Americana de Urologia e especialista em Uro-Oncologia pela Universidade de São Paulo, os dados refletem um comportamento machista apresentado por alguns homens, que costumam julgar-se invulneráveis e associam idas ao médico como algo necessário apenas a crianças, mulheres e idosos. Em função disso, o que vemos na prática é que as mulheres costumam viver em média 7 anos a mais do que os homens. Infelizmente, muitos só procuram o médico quando sentem algum sintoma ou desconforto no trato urinário e, na maioria das vezes, por insistência de uma mulher — como a esposa, a mãe ou a filha. O que mais os afugenta é o receio de realizar o exame digital da próstata, fundamental para avaliação de doenças prostáticas”, contextualiza o médico”.

Sejamos honestos, será mesmo que o comportamento reflete o machismo dos homens ou a segregação imposta ao gênero masculino? Esses só têm a obrigação de trabalhar, incansavelmente e adquirem ao longo da vida o papel de previdência social ou banco para realização dos deleites femininos, mas não podem consultar, não podem cuidar da própria saúde, e devem ser fortes, incansáveis, verdadeiras máquinas, e em hipótese alguma podem adoecer.

Para conseguir uma consulta com urologista através do SUS, o homem precisa de recomendação de outro médico e fica à mercê da disponibilidade de algum profissional, escasso, por meses e meses, e até mesmo anos de espera. Quando consegue agendar uma consulta, os exames são postergados. Como descobrir um câncer de próstata precocemente, em fase inicial, ou uma DTS?

Eu fui conhecer um centro de saúde do SUS e me foi dito pelo médico e profissionais que lá trabalham que não existe nada especifico para saúde do homem. Fiz uma consulta e solicitei um urologista. O médico geral não quis indicar e depois de indicar para a rede no sistema e me dar um formulário, me disse para esperar uma ligação telefônica para marcação com o urologista, pois é assim que funciona. Isto foi em dezembro de 2017 e até hoje não recebi a tal ligação para marcar a consulta. Já liguei lá e me disseram que tem que esperar a ligação. Eles oferecem, mas não marcam e dizem que tem que esperar alguém ligar para marcar, pois é especialidade. (Desabafo de um homem, em junho de 2018, Minas Gerais)

Aqui no Espirito Santo, nos postos geralmente só tem três especialidades: clínica geral, pediatria e ginecologia. Pra conseguir um urologista, é necessário passar por um clínico geral, pegar um formulário preenchido por ele e, claro, esperar alguns meses até a consulta ser marcada. (Desabafo de um homem, em junho de 2018)

Quando era bem pequena, lembro que a idade para a primeira consulta preventiva era aos 40 anos de idade, hoje prolongaram para 45/50 anos, mas se o percentual de câncer de próstata aumentou, por que a idade mudou?

“Os homens, de forma geral, habituaram-se a evitar o contato com os espaços da saúde, sejam os consultórios médicos, sejam os corredores das unidades de saúde pública, orgulhando-se da própria invulnerabilidade. Avessos à prevenção e ao autocuidado, é comum que protelem a procura de atendimento, permitindo que os casos se agravem e ocasionando, ao final, maiores problemas e despesas para si e para o sistema de saúde, que é obrigado a intervir nas fases mais avançadas das doenças”

O próprio sistema de saúde retarda o atendimento do homem, mas culpabiliza o mesmo pela descoberta tardia de doenças, o que aumenta os custos no tratamento, além de diminuir as chances de cura. Os homens têm direito a consultas e exames de rotina, mas só conseguem acesso a urologistas quando apresentam sintomas e sinais do avançar de doenças.

  1. DIREITOS ASSEGRUADOS EM LEI

3.1Exame de câncer de próstata gratuito (SUS) a todo homem com mais de 40 anos de idade

Art. 4º O Programa Nacional de Controle do Câncer de Próstata deverá incluir, dentre outras, as seguintes atividades: 
II – parcerias com as Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, colocando-se à disposição da população masculina, acima de quarenta anos, exames para a prevenção ao câncer de próstata; 
(Lei nº 10.289, de 20 de 2001)

3.2 Diagnóstico e tratamento do câncer (SUS)

Art. 2º – As Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia podem prestar atendimento nos serviços abaixo descritos: I. Serviço de Cirurgia Oncológica; II. Serviço de Oncologia Clínica; III. Serviço de Radioterapia; IV. Serviço de Hematologia; V. Serviço de Oncologia Pediátrica. (Portaria nº 741, de 19 de 2005)

3.3 Exames obrigatórios

Art. 4o-A. As unidades integrantes do Sistema Único de Saúde são obrigadas a realizar exames para a detecção precoce do câncer de próstata sempre que, a critério médico, tal procedimento for considerado necessário.    (Lei nº 13.045, de 2014)

3.4 Programa de Apoio ao Paciente com câncer (PAP)

Informar os direitos sociais do paciente, por telefone, com equipe multiprofissional

(08007731666), sobre auxilio doença, isenção de impostos na aquisição de veículos, aquisição de medicamentos e controle de efeitos, entre outros.

3.5 Lei dos 60 dias

Reconhecimento do Ministério da Saúde para o prazo máximo de 60 dias para início do tratamento oncológico, contado da assinatura do laudo patológico.

Art. 2º O paciente com neoplasia maligna tem direito de se submeter ao primeiro tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS), no prazo de até 60 (sessenta) dias contados a partir do dia em que for firmado o diagnóstico em laudo patológico ou em prazo menor, conforme a necessidade terapêutica do caso registrada em prontuário único. 1º Para efeito do cumprimento do prazo estipulado no caput, considerar-se-á efetivamente iniciado o primeiro tratamento da neoplasia maligna, com a realização de terapia cirúrgica ou com o início de radioterapia ou de quimioterapia, conforme a necessidade terapêutica do caso (Lei nº 12.732, de 2012)

DIA NACIONAL DA SAÚDE DO HOMEM UMA DATA PARA INGLÊS VER

  1. CÂNCER DE PRÓSTATA

Estima-se mais de 68 mil novos casos de câncer de próstata em 2018/2019, sendo o mais incidente entre os homens, em todas as regiões do país, “com 96,85/100 mil na Região Sul, 69,83/100 mil Região na Sudeste, 66,75/100 mil na Região Centro-Oeste, 56,17/100 mil na Região Nordeste e 29,41/100 mil na Região Norte, responsável por mais de 10 mil óbitos por ano no Brasil.

Em 2010 o Brasil registrou 179 mil mortes por câncer. O câncer dos brônquios e dos pulmões foi o tipo que mais matou (21.779 pessoas), seguido do de estômago (13.402), da próstata (12.778), da mama (12.853), e do cólon (8.385). (Agência Saúde – ASCOM/MS)

A evolução da doença é lenta, salvo alguns casos, e em sua fase inicial é assintomática, o que torna as consultas e exames de rotina de extrema necessidade. Nas fases avançadas o homem pode apresentar dores nas costas, nas pernas e nos quadris, dada a disseminação para os ossos, bem como diminuição da pressão no do jato miccional, sensação de esvaziamento incompleto da bexiga – o que aumenta as idas ao banheiro. O câncer pode estar na próstata ou atingindo outros órgãos.

Os exames essenciais para a descoberta da doença são a dosagem no sangue do PSA e o toque retal. Existindo suspeita do câncer de próstata, o médico pode solicitar ainda uma biópsia.

O tratamento pode variar de cirurgia isolada, a cirurgia acompanhada de radioterapia, quimioterapia e vigilância ativa, o que vai depender do estágio da doença e caraterísticas do paciente. Quando a doença é descoberta na fase inicial a cura ocorre em torno de 90% dos casos.

  1. DESCASO

O questionamento que faço é quanto ao descaso da saúde masculina, falsas propagandas, ausência de especialista básico nos postos de saúde e anos de demora para uma consulta de rotina. Dia 15 de julho, assim como novembro azul são apenas datas para inglês ver, que não tem serventia, não atendem os homens, dão falsas expectativas e mais se assemelham ao dia da mentira.

Às mulheres é oferecida inúmeras opções, e devem ser mantidas, mas por que não existe mutirão de urologia? Por que não existe andrologista no SUS, quando dizem ter uma  Coordenação Nacional de Saúde dos Homens (CNSH)? Por que não existe exame itinerante de toque? Por que negligencias a saúde do homem? A saúde do homem importa menos?

É querer demais, o acesso dos homens a especialidade BÁSICA que cuide deles? No mínimo consultas de rotina com urologista e realização de exames preventivos?

Mas o dia 15 de julho realmente é uma data para “lembrar” o homem de cuidar da própria saúde, e não para lembra-lo que até mesmo o básico lhe é negado. Sem o efetivo direito da saúde, não é possível exercer os demais direitos! Na saúde masculina não existem só lacunas, mas impedimentos concretos que dificultam o acesso e distanciam os homens de um direito fundamental e inerente a todos os seres humanos. Dignidade humana? O que é isso?

Ainda sobre saúde masculina, poderia falar sobre o suicídio, que também é uma decorrência natural de tanto descaso, onde 79% das pessoas que tiram a própria vida, encontram-se os homens.

 A melhor forma de entender o suicídio não é estudando o cérebro, e sim, as emoções. As perguntas a fazer são: ‘onde dói’? e ‘como posso ajudá-lo? (Edwin Schneidman)

Ás vezes doí a dignidade, o coração, a ingratidão da amada ou dos filhos; Ás vezes doí a falta de reconhecimento e ser visto como uma máquina que não tem direito a respirar, falar e se cuidar; sugado até a exaustão, física, econômica e emocional.

REFERÊNCIAS:

Estimativa 2018: incidência de câncer no Brasil/Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação de Prevenção e Vigilância. – Rio de Janeiro: INCA, 2017. Disponível em: http://www.inca.gov.br/estimativa/2018/estimativa-2018.pdf e http://www.inca.gov.br/estimativa/2018/sintese-de-resultados-comentarios.asp
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem: princípios e diretrizes/Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Ações Programáticas e Estratégicas – Brasília: Ministério da Saúde, 2009. 92 p.: il. – (Série B. Textos Básicos de Saúde). Disponível em:  http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2014/maio/21/CNSH-DOC-PNAISH—Principios-e-Diretrizes.pdf
Direitos sociais da pessoa com câncer / Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva. Coordenação Geral de Ações Estratégicas. Divisão de Comunicação Social. – 3a ed. – Rio de Janeiro: INCA, 2012. Disponível em: http://www1.inca.gov.br/inca/Arquivos/direitossociaisdapessoacomcancerterceiraedicao2012.pdf
LEI No 10.289, DE 20 DE SETEMBRO DE 2001. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/leis_2001/l10289.html
Quase 30% dos brasileiros têm plano de saúde, diz nova pesquisa do IBGE. Disponível em: https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/quase-30-dos-brasileiros-tem-plano-de-saude-diz-nova-pesquisa-do-ibge-16325726
Dia Nacional da Saúde do Homem. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=3253:dia-nacional-da-saude-do-homem&Itemid=685

 

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