Crianças autistas podem ser beneficiadas ao aprenderem uma segunda língua

Crianças autistas podem ser beneficiadas ao aprenderem uma segunda língua

Pesquisa sugere que crianças com espectro autista que são bilíngues têm mais flexibilidade cognitiva

Com apenas dois anos de idade, o pequeno Raul já via desenhos e filmes em inglês. “Hoje, aos sete, ele fala melhor do que eu”, brinca a mãe Viviane Lemos se referindo à fluência do menino no idioma. Diagnosticado com espectro autismo moderado, Raul melhorou sua capacidade de comunicação por meio da língua estrangeira.




“Desde muito pequeno ele assiste desenhos em áudio original. Percebi que isso o ajudou a se comunicar melhor. Agora ele se sente mais feliz, capaz e participativo”, conta Viviane, cofundadora do coletivo Anjos Vermelhos, que luta pelos direitos das pessoas autistas.

A história da família paulistana vai ao encontro de uma pesquisa divulgada recentemente na revista científica Child Development: o estudo realizado na Universidade McGill, no Canadá, concluiu que aprender uma segunda língua pode melhorar a flexibilidade cognitiva (capacidade de encontrar saídas alternativas para a resolução de problemas) das crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para chegar a esse resultado aplicou-se um teste em 40 crianças de seis a nove anos — entre elas autistas bilíngues e não bilíngues. Na parte mais difícil do exame, os pequenos deveriam organizar alguns objetos de acordo com classificações predefinidas (cor e forma, por exemplo). A conclusão foi que crianças autistas bilíngues tiveram mais facilidade em fazer a tarefa.

Ressalvas

Embora reconheça a relevância da pesquisa, o neurologista Marco Antônio Arruda, secretário do Departamento Científico de Neurologia Infantil da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), afirma que o estudo é limitado, já que desconsidera as chamadas pessoas autistas de baixo e alto funcionamento.

“As de alto funcionamento são crianças com habilidades sociais. Elas também costumam chamar atenção por suas habilidades em memória, cálculo, aprendizado e capacidade de aprender uma nova língua. O estudo é importante, mas não podemos simplesmente falar ‘ensine uma nova língua para o seu filho que ele irá melhorar’ porque não é possível chegar nessa conclusão”, diz em entrevista à Gazeta do Povo.

A fonoaudióloga infantil Carla Ulliane, porém, percebe a facilidade que algumas crianças autistas têm para aprender outros idiomas. Mas apesar de afirmar que esse aprendizado é benéfico, ela ressalta a importância de um acompanhamento profissional.

“Nossa capacidade neuronal e cognitiva acaba aumentando quando aprendemos novas línguas. Mas temos que tomar cuidado porque isso precisa ser acompanhado: às vezes pode ser uma mera repetição da criança e não representar que ela realmente sabe aquele idioma”, diz.

Comunicação alternativa

Para o estudante da Universidade de São Paulo (USP), William de Jesus Silva, membro da Associação Brasileira para Ação por Direitos das Pessoas com Autismo (Abraça), a pesquisa tem relação com a chamada comunicação facilitada.

 

“Nós, que estamos dentro do movimento de neurodiversidade [conceito que defende que diferenças neurológicas devem ser reconhecidas e respeitadas] debatemos muito a questão da comunicação alternativa, seja por meio da língua de sinais ou por outros métodos que a pessoa se identifique”, afirma William, que descobriu que tinha autismo por volta dos 14 anos.

Adaptação do currículo escolar

Mais do que estimular as crianças autistas a aprenderem uma nova língua ou outro método de comunicação, a adaptação do currículo escolar é primordial para o pleno aprendizado das pessoas com TEA. Prevista da Lei da Inclusão (13.146/2015), a adaptação refere-se à modificação da forma como o conteúdo é ensinado e apresentado às crianças.

“Meu filho estuda em uma escola da rede pública municipal. No começo, eles não enviavam a lição de casa adaptada. Então fiz uma reclamação e eles passaram a mandar. Isso foi fundamental: essa adaptação garante que a criança se sinta totalmente integrada em sala de aula”, conta Viviane.

A fonoaudióloga Carla Ulliane destaca, porém, que não são todas as crianças que precisam de um currículo adaptado. “A adaptação é individual, ou seja, ela deve ocorrer de acordo com as limitações e habilidades de cada criança. É importante que esse aprendizado ocorra da melhor forma possível, respeitando essas características particulares”, diz.

Além disso, Ulliane afirma que é importante ensinar o mesmo conteúdo que é passado às outras crianças na sala de aula.

“Se um aluno autista ainda não sabe ler e escrever, mas o professor vai passar uma atividade que exige leitura e escrita, o profissional pode adaptar essa atividade para o estudante por meio de outros recursos, como tabletes ou mesmo recortes de revistas”.

Pessoas com deficiência

Desde 2012, pessoas com espectro autista têm os mesmos direitos das pessoas com deficiência. Mas apesar da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (9.394/1996) prever o atendimento educacional especializado para esses alunos em todas as etapas de ensino, ainda há falhas no sistema educacional brasileiro.

Para William de Jesus Silva, da Abraça, falta preparação do corpo docente e até dos pais. “Muitas vezes a escola regular não está preparada para receber a criança autista. Em alguns casos, principalmente nos níveis mais severos de autismo, professores ou pais acabam recorrendo à educação especializada”, diz.

“É aí que entra a polêmica: geralmente esses alunos ficam isolados em uma sala de recursos. O modelo ideal, acredito, ainda passa pela Educação Inclusiva”, conclui.

 

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